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Entrevista de Pelegrino à Tribuna da Bahia

Entrevista exclusiva (reprodução)
por Osvaldo Lyra
Publicada em 10/04/2017

Em análise de possíveis cenários para as eleições de 2018, o deputado federal Nelson Pelegrino avaliou em entrevista à Tribuna que a senadora Lídice da Mata deve ficar fora da provável chapa majoritária encabeçada pelo governador Rui Costa (PT).

“Eu penso que o governador Rui Costa na cabeça, o ex-governador Jaques Wagner para uma vaga no Senado, e as outras vagas, uma do PP e a outra do PSD. Evidente que temos a senadora Lídice, que pleiteia e tem legitimidade, tem que ser considerada. Mas eu penso que o núcleo básico é um núcleo que envolva o PT, o PSD e o PP”, disse Pelegrino.

deputado acredita que o prefeito de Salvador, ACM Neto (DEM), vai “reconsiderar” a ideia de ser candidato. “Ele está vendo que Rui está bem em Sa vador, que Rui está bem no estado. Eu não descartaria a possibilidade de o prefeito ACM Neto reavaliar essa possibilidade de ser candidato a governador”. Sobre o governo de Michel Temer (PMDB), o deputado fulmina: “É um desastre”. Confira a íntegra da entrevista abaixo.

Tribuna da Bahia – O governo federal tem algumas reformas amargas a aprovar, entre elas as da Previdência e tributária. O Planalto terá fôlego para conseguir isso?
Nelson Pelegrino –
O presidente Temer já foi derrotado na reforma da Previdência. Foi divulgada uma pesquisa num jornal dizendo que de 425 deputados consultados, num universo de 513, 240 se manifestaram contrários à proposta de reforma da Previdência. Se você aplicar isso em percentual, vai dar mais de 60%. O governo já fala em mudanças no texto, de flexibilização. A proposta é muito ruim. Além de ser ruim, é uma proposta que atropelou o processo que estava em curso, que era um grande debate que precisava ser feito em nível nacional, não só sobre a Previdência, mas sobre a seguridade social no Brasil. Porque essa proposta encaminhada pelo governo mexe também na seguridade, altera os benefícios tanto com relação à idade quanto com a vinculação ao salário mínimo. Eu acho que o governo não conseguirá aprovar a proposta de reforma da Previdência, e terá dificuldade também para aprovar a reforma trabalhista. O governo Temer é dependente de entregas. Quando o golpe parlamentar foi executado, ele foi executado para cumprir essa agenda que Temer tenta agora entregar. Se ele não faz a entrega, ele corre um sério risco. Ele está vivendo esse dilema. De um lado, ele tem que entregar. Do outro, é crescente na sociedade a resistência às suas ações.

Tribuna – O governo confia no fisiologismo que continua pulsando no Congresso para aprovar essas medidas?
Pelegrino –
O problema é que qualquer parlamentar é sobrevivente. Ele depende de votos, e se aproxima a eleição do próximo ano. É uma eleição com um cenário absolutamente incerto. Porque há uma proibição de financiamento por empresas, por parte do Supremo Tribunal Federal. A gente conversa sobre isso no dia a dia lá em Brasília. A experiência das eleições de 2016 foi muito ruim. Nós temos um sistema eleitoral, e ele é um sistema como um todo. O texto em vigor mexeu em apenas um elemento do sistema político, o financiamento de campanhas por empresas. Agora, o que imperou na eleição passada, em grande medida, foi dinheiro de agiota, de rico, do jogo do bicho, do tráfico de drogas, o caixa dois foi muito grande também. Então, todo mundo está assustado em Brasília com o que viram na eleição de 2016 e que não querem repetir na eleição de 2018. É um cenário de disputa eleitoral muito incerto e difícil. Essa dificuldade pode ser ampliada enormemente se um parlamentar vota a favor de uma proposta impopular, como essa proposta da Previdência e a reforma trabalhista. Já ouço isso de alguns deputados.

Tribuna – As últimas mobilizações levarão os parlamentares a repensar seu voto?
Pelegrino –
Eu já ouço de alguns deputados que ousaram votar a favor da terceirização que eles já estão começando a ouvir a reação nas ruas. Alguns já começam a sentir reação nas ruas a essa repulsa ao projeto da terceirização. A pressão vai aumentar, as mobilizações aumentarão, a insatisfação está aumentando e quanto mais próximo da eleição, mais difícil aprovar qualquer medida impopular?

Tribuna – Quais são os pontos mais sensíveis na proposta de reforma da Previdência?
Pelegrino –
O primeiro é a proposta inaceitável de condenar o trabalhador a ter que trabalhar 49 anos para ter direito à aposentadoria integral. Isso é inadmissível. Em lugar nenhum do mundo existe isso. Não há nenhum acordo em relação a isso. Segundo, essa proposta de acabar a aposentadoria especial do trabalhador rural. A equiparação do trabalhador urbano ao trabalhador rural, simplesmente vai inviabilizar a aposentadoria dos trabalhadores rurais. Nenhum trabalhador rural vai conseguir se aposentar no Brasil. Isso é complicado. É uma proposta horrível também para as mulheres.

Tribuna – Como o senhor vê o projeto da reforma trabalhista?
Pelegrino –
O projeto que aumentou o tempo do contrato temporário e autorizou a terceirização em todas as áreas profissionais e até nas atividades-fim na verdade foi só uma minirreforma trabalhista. O governo ainda quer aprovar outro texto, que além de ter elementos como este, tem a questão que é essencial, que é a ideia de o acordo prevalecer sobre a legislação. Ou seja, o que está hoje minimamente assegurado na Constituição, na CLT, poderá ser flexibilizado a partir de acordo coletivo. Eles simplesmente rasgaram a CLT e a Constituição. É uma proposta que nós consideramos inconstitucional. Tem um nível de desemprego recorde no Brasil. Vamos fechar o ano com 15 milhões de desempregados. Já temos hoje 13,5 milhões de pessoas desempregadas no Brasil. Com esse projeto da terceirização, o movimento sindical vai ficar muito desorganizado. São medidas que vão fragilizar o segmento sindical, vão fragilizar os trabalhadores. Os trabalhadores serão presas fáceis para os patrões. Veja, por exemplo, que a proposta permite que você possa parcelar a gratificação de um terço salarial nas férias. O que são as férias a não ser a antecipação do salário do mês? O que você tem de bônus é um terço do salário. Mas o dinheiro das férias é a antecipação do seu salário do mês. Como é que pode diminuir o salário do trabalhador em três, quatro ou cinco vezes? É um retrocesso centenário, são conquistas históricas de cem anos atrás sendo rasgadas com esse pacote de reforma de Previdência, trabalhista e da lei de terceirizações e do trabalho temporário.

Tribuna – A Operação Lava Jato atingiu o ex-presidente Lula e o PT. Agora mira o PP e o PMDB. Qual sua avaliação?
Pelegrino –
A Operação Lava Jato revelou uma coisa que nós do PT sempre combatemos no Brasil: essa promiscuidade entre o financiamento privado e a política. A gente sabe que tem elementos que precisam ser examinados. Por exemplo, receber dinheiro em Nova York, receber dinheiro na Suíça. Não dá para dizer que isso foi dinheiro para a campanha. A partir do momento em que a Odebrecht fez suas delações, a questão saiu do núcleo original da operação, em Curitiba, e mostrou que todos os partidos… O foco da força-tarefa em Curitiba é a Petrobras, mas isso se desdobrou, porque todas essas empreiteiras não só financiaram as campanhas do PT, do PP, do PR e do PDMB, mas fi nanciaram campanhas do DEM e do PSDB também. De todos os partidos indistintamente. Com o desenrolar das investigações, o que está se revelando ao país é que há realmente um mal grande, essa coisa do financiamento de empresas. Isso gera promiscuidade, e esses problemas estão sendo apurados. Isso coloca na ordem do dia a necessidade da reforma política. Se não houver uma reforma política profunda, se não mudar a lógica do sistema político brasileiro, vamos viver crises como essa.

Tribuna – As investigações em andamento podem atingir Michel Temer diretamente?
Pelegrino –
Já atingiram, já atingiram a todos. O problema são as ênfases que estão sendo dadas, os ritmos e as velocidades das investigações. E a apuração vem crescendo. Tem o núcleo original, que é em Curitiba, mas já tem um núcleo no Rio de Janeiro. Mas a operação já cegou ao presidente Michel Temer. Não só a ele, mas também a todo o núcleo do entorno dele. O núcleo do governo todo está sendo investigado pela Operação Lava Jato.

Tribuna – Qual a sua expectativa sobre o julgamento da chapa Dilma-Temer? O presidente conseguirá concluir o mandato?
Pelegrino –
A expectativa é de que, usando uma jurisprudência histórica da Justiça Eleitoral, é que não seja possível dividir a chapa. Há uma indivisibilidade. Isso é indiscutível. Acho que será uma desmoralização profunda da Justiça Eleitoral brasileira se houver essa tentativa de dividir a chapa. Os elementos que até agora têm chegado a nosso conhecimento são muito fortes. Não há como cassar a chapa se não cassar a chapa inteira. Eu penso que há uma expectativa grande em relação ao que o TSE fará. A expectativa da sociedade, pelo que já chegou a conhecimento público, é de que houve realmente abuso de poder econômico. Portanto, não há outro caminho a não ser cassar a chapa Dilma-Temer.

Tribuna – Como o senhor avalia o governo de Michel Temer?
Pelegrino –
Um governo péssimo. Um governo ilegítimo, porque foi fruto de um golpe parlamentar. Não teve a legitimidade. As reformas que ele está propondo não foram autorizadas pelas urnas. Pelo contrário, as urnas por quatro eleições rejeitaram a agenda adotada por Michel Temer. E por ter rejeitado por quatro vezes essa agenda nas urnas é que eles foram pelo caminho do golpe parlamentar. Eles sabiam que pela via das eleições eles nunca conseguiriam colocar essa agenda no Brasil. Eles foram pelo atalho, que é o caminho do golpe parlamentar. Pegaram o vice-presidente da chapa, que foi eleito por um programa, para ele governar por outro. Essa agenda já foi implantada no Brasil no passado, com Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Só trouxe perda de soberania do país, desmonte do Estado e do serviço público, setores estratégicos da economia brasileira se esvaindo, gerando desemprego e concentração de renda. Essa agenda quando foi adotada no Brasil só trouxe isso que está trazendo agora. O golpe quebrou o Brasil. O golpe está desorganizando cadeias produtivas. A indústria do petróleo está sendo desmontada, com privatizações criminosas. São 2 milhões de empregos que já perdemos nessa indústria. A Operação Carne Fraca vulnerou muito nossa indústria. A indústria naval já teve 80 mil empregos hoje só têm 30 mil. Setores estratégicos da economia brasileira estão sendo desmontados. O Brasil, se continuar nessa agenda, vai ser uma colônia dos Estados Unidos, uma colônia exportadora de produtos agrícolas. No que não for de interesse…


Tribuna – Os sinais de recuperação da economia fragilizam os argumentos do PT e da ex-presidente Dilma Rous-seff?
Pelegrino –
Não há nenhum sinal de recuperação da economia. O desemprego continua em alta. Todos os setores da economia estão desaquecendo. Quando você chega ao fundo do poço, com um decréscimo de quase 8% do produto interno bruto (PIB)… Só país em guerra tem um decréscimo desse no seu produto interno bruto. É óbvio que pode alguma coisa crescer, mas está muito longe de haver recuperação estratégica da economia brasileira. Até porque esse modelo econômico implantado é um modelo que jamais trará inclusão social e distribuição de renda. O modelo que o Brasil já adotou no passado recente, o modelo da era Lula, que é o modelo correto. Soberania, distribuição de renda, distribuição de emprego. Esse é o caminho que o Brasil viveu, que gerou 12 milhões de empregos e fez com que a gente não só chegasse ao menor patamar de desemprego do Brasil, chegamos a 4,8%, como também nunca o Brasil cresceu tanto quanto cresceu na época do governo Lula.

Tribuna – Qual o cenário que o senhor vislumbra para as eleições de 2018?
Pelegrino –
Eu confesso que tenho preocupações, porque a elite brasileira pensa pouco no país. Essa elite botou Collor na presidência da República, e deu um golpe parlamentar e tirou uma presidente legitimamente eleita. O que acontece? Essa agenda de Michel Temer só vai aprofundar o descrédito do governo e de todos aqueles que estão com ele. A tendência é o crescimento da candidatura de Lula, o fortalecimento dessa alternativa. A tendência é a derrota deles. Não descarto nenhuma nova alternativa golpista.

Tribuna – Como o senhor viu a queda de Geddel e a ascensão de Imbassahy no governo?
Pelegrino –
Pelo que eu tenho de informação, todo o staff de Geddel Vieira Lima está mantido lá na Secretaria de Governo, e que o centro de poder passa pela dupla Padilha-Moreira Franco. Esse é o centro de poder do Planalto. Eu soube inclusive que há uma disputa entre os dois. O que sei é que as decisões não passam pelo gabinete de Imbassahy, e sim pelos gabinetes dos ministros Padilha e Moreira Franco.

Tribuna – Imbassahy estaria esvaziado no governo?
Pelegrino –
Além de não ter feito nenhuma operação significativa, as informações que eu tenho é que as decisões passam pela Secretaria de Projetos Especiais.

Tribuna – Qual a avaliação que o senhor faz do governo de Rui Costa na Bahia?
Pelegrino –
Boa. É um governo bem avaliado. Rui é um governador ideal para este momento, porque ele é um gestor. Nesse momento de restrição fiscal, o dinheiro fica muito curto, e é preciso de alguém que se preocupe até com a conta de luz nas repartições. Rui é esse gestor. Ele se preocupa com todos os detalhes de todas as secretarias. Além disso, ele tomou medidas corretas no início do governo e teve a capacidade de fazer ajustes para que o Governo da Bahia continuasse a pagar suas contas em dia. A Bahia é o maior estado em capacidade de investimento hoje. Ele está bem em Salvador. Em minha opinião, Rui Costa é o favorito para a eleição do ano que vem .

Tribuna – Acredita que o prefeito ACM Neto se lançará na disputa em 2018?
Pelegrino –
O prefeito ACM Neto aposta em dois elementos. Um é que ele teria uma grande vantagem em Salvador, e não terá. Eu arriscaria dizer que Rui Costa vai ganhar a eleição em Salvador. Dois: ele apostou na divisão de nossa aliança. Ele apostou que o PSD e o PP não marchariam com Rui Costa. Então, ele está vendo que Rui está bem em Salvador, que Rui está bem no estado. O núcleo da aliança está mantido, e esse núcleo é muito forte. O governo Rui é bem avaliado. Ele tem feito investimentos importantes na área da saúde, na educação, na infraestrutura. Portanto, eu não descartaria a possibilidade de o prefeito ACM Neto reavaliar essa possibilidade de ser candidato a governador. Agora, pode ser que ele seja candidato a outro cargo, a senador. Mas penso que o governador Rui Costa é favorito. Não só penso. Eu tenho visto e ouvido muito isso.

Tribuna – Qual será a chapa ideal do PT para 2018 na Bahia?
Pelegrino –
Eu penso que o governador Rui Costa na cabeça, o ex-governador Jaques Wagner para uma vaga no Senado, e as outras vagas, uma do PP e a outra do PSD. Evidente que temos a senadora Lídice, que pleiteia e tem legitimidade, tem que ser considerada. Mas eu penso que o núcleo básico é um núcleo que envolva o PT, o PSD e o PP, mas podemos também pensar em outras ampliações. Tem a candidatura de Lídice, que é uma candidatura legítima.

Tribuna – Como o senhor vê a disputa pelo PT em nível nacional e em Salvador?
Pelegrino –
Eu penso que vai haver renovação. Qualquer que seja o resultado, haverá renovação. O setor que hoje preside o partido já não é mais hegemônico. Já na configuração atual, das três chapas existentes, a ‘Muda PT’ e a ‘Optei’ representam 70% em relação à CNB na direção do estado hoje. Qualquer que seja o resultado, o PT não será mais o mesmo. Haverá uma mudança no comando do partido e na orientação do comando da direção do partido.

Tribuna – O senhor acredita que esse processo de discussão interna no PT indica que é chegada a hora de o partido fazer uma confissão pública dos erros e buscar mudar sua forma de fazer política?
Pelegrino –
Eu penso que todos têm que fazer autocrítica.

Colaboraram: Fernanda Chagas e Romulo Faro.